GUERRA AO TRÁFICO
Por Carlos Brickmann em 30/11/2010
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O Exército alemão ainda era uma força extremamente poderosa, e o público alemão estava convencido de que a guerra não apenas iria durar muito tempo como, no final, as potências centrais (impérios austro-húngaro, turco e alemão) seriam vencedoras. Essas eram as notícias que recebiam; e, quando a Alemanha se rendeu, o que ficou na opinião pública foi a imagem da traição – da facada nas costas, dos líderes civis e militares que se venderam ao inimigo.
Os meios de comunicação são poderosos. A imagem que traçam da realidade é frequentemente tão ou mais poderosa que a própria realidade, a tal ponto que, quando a realidade se impõe, surgem as versões conspiratórias da História. É o que devemos temer na guerra ao narcotráfico, iniciada no Rio de Janeiro (e que ainda pode perfeitamente estender-se a outros estados, já que mercado existe e existem os fornecedores). As informações e as imagens são reais: com apoio de blindados dos fuzileiros navais, o Bope, tropa de elite da Polícia Militar do Rio, colocou em fuga um imenso grupo de narcotraficantes e ocupou um de seus principais redutos, a favela de Vila Cruzeiro. Foi uma vitória épica, bonita, acompanhada passo a passo pela TV. Mas nem tevê nem ninguém mostrou tudo.
1. Qual a vantagem de espalhar os traficantes, em vez de prendê-los? OK, o território brasileiro não deve ser entregue aos bandidos, isto é correto; mas simplesmente afastá-los de onde estão significa que vão para outros lugares, e não que, privados de sua ligação telúrica, de suas raízes na terra em que vivem, se transformarão em cidadãos capazes de exemplarmente cumprir a lei.
É o que acontece em São Paulo, com os "nóia", os viciados em crack que se concentravam na região conhecida como Cracolândia: as intervenções policiais fizeram com que saíssem da Cracolândia e se espalhassem por outras regiões da cidade. E, quando a polícia saiu, boa parte voltou à Cracolândia. Final da história: a Cracolândia continua sendo Cracolândia e outras regiões ganharam um imenso problema que não têm a menor idéia de como resolver.
2. A existência de consumo faz com que surjam fornecedores. Imaginemos um cenário em que todos os atuais fornecedores sejam presos e colocados em locais de onde não possam comandar o crime. Alguém tomará seu lugar. Sem cocaína, sem ecstasy, sem outras drogas é que o consumidor não vai ficar. Ou seja, num primeiro momento o tráfico será desorganizado, mas logo depois se organiza. E toca a usar armamento pesado para enfrentar os novos donos do pó.
3. Se a Globo e a Record localizam os bandidos em fuga, que é que impede a polícia de também fazê-lo? Melhor ainda, tendo em mãos os mapas e conhecendo as trilhas da região, por que deixar de lado o cerco e a captura?
4. Por que, de repente, os bandidos começaram a incendiar carros e ônibus no Rio? Os serviços policiais de informações não terão qualquer idéia do que possa estar ocorrendo? E não se trata de uma explosão que acabou entusiasmando outras pessoas: tudo indica que o movimento é articulado, coordenado.
5. Se é tão importante ocupar território, se a Vila Cruzeiro é um território de tão alta importância, por que, após a ocupação de 2008, pelo mesmo Bope que a ocupou agora, foi desocupado e devolvido aos bandidos?
6. E os bandidos de outras especialidades, por onde andarão? A turma dos sequestros, dos arrastões, dos assaltantes, dos batedores de carteiras, dos ladrões de automóveis, dos desmanches, os mafiosos dos caça-níqueis, todos terão se alistado na turma dos traficantes?
7. O governador do Rio, Sérgio Cabral, está completando quatro anos de mandato. Há alguma explicação para a quase invisibilidade da presença do Estado em todas as favelas invadidas nestes últimos meses?
8. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Garotos da classe média para cima são mais bem tratados pela imprensa e pela polícia do que pessoas da mesma idade, da classe média para baixo. Isso não acontece só na área de tráfico e consumo de drogas, mas em todas as áreas: recolher os rapazes que, sem provocação, agrediram pessoas que nem conheciam na Avenida Paulista, em São Paulo, foi um processo que demorou vários dias e exigiu muita pressão de opinião pública. Na área do tráfico a coisa é ainda mais clara: o milionário que dava dinheiro a um traficante de primeiro time, para ajudá-lo a fugir e se esconder, não teve nenhum tipo de aborrecimento, exceto explicar que tinha agido com a mais louvável das intenções. Se fosse pobre, ninguém levaria sua boa intenção a sério.
O risco maior
Nahum Sirotsky, correspondente em Tel Aviv do iG e de Zero Hora, jornalista que sempre figurou entre os mais notáveis do país, lembra a peça "Pedro Mico", do também magnífico Antônio Callado. Na peça, dirigida por Paulo Francis, com Milton Moraes no papel-título e Beyla Genauer como sua namorada, há um momento em que o malandro Pedro Mico pergunta: "E se o morro baixar?"
O excelente compositor Paulo Sérgio Pinheiro lançou, em 1993, "O dia em que o morro descer e não for Carnaval", cantado por Wilson das Neves. Um trecho:
"O dia em que o morro descer e não for carnaval/ ninguém vai ficar pra assistir o desfile final/ na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu/ vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil (é a guerra civil)/ No dia em que o morro descer e não for carnaval/ não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral/ e cada uma ala da escola será uma quadrilha/ a evolução já vai ser de guerrilha e a alegoria um tremendo arsenal (...)"
Só que não é o morro que desceu: são os traficantes que subiram, é a polícia que subiu atrás (e só os serviços públicos é que não subiram). Trata-se, portanto, apesar das imagens bélicas, apesar da comoção pública, apesar do noticiário triunfante dos meios de comunicação, de um evento limitado. Um evento muito mais limitado do que pode ocorrer se um dia o morro descer e não for Carnaval.
Quem é favela
É comovente ver, ouvir e ler, nos meios de comunicação, matérias sobre habitantes de "comunidades carentes" (parece que, se não chamarem favela de favela, as coisas ficam melhores), felizes com o afastamento dos narcotraficantes. É tão comovente que este colunista gostaria de encontrar mais matérias sobre o tema, sem que para isso seja necessário estar às portas de uma guerra civil. Pois a carga que recai sobre o favelado é muito maior que as más condições de vida, a pobreza, o risco permanente de vida: a isto se soma o preconceito, a vergonha, a necessidade de, para disputar um emprego melhor, inventar um endereço que não seja de favela. Vale a pena citar aqui o samba de Noca da Portela e Sérgio Mosca:
"A favela nunca foi reduto de marginal/ A favela nunca foi reduto de marginal/ lá só tem gente humilde, marginalizada/ E essa verdade não sai no jornal/ A favela é um problema social/ A favela é um problema social/ Sim, mas eu sou favela/ Posso falar de cadeira/ Minha gente é trabalhadeira/ E nunca teve assistência social/ Ela só vive lá/ Porque para o pobre não tem outro jeito/ Apenas só tem o direito/ A um salário de fome e uma vida normal/ A favela é um problema social/ A favela é um problema social."
Politicamente correto
O jornalista Cláudio Humberto comenta que boa parte da imprensa chama os ataques à população do Rio de "ações", da mesma forma que transformou "criminalidade" em "violência" e acabou com as favelas na cidade, rebatizando-as de "comunidades".
Comentário da sempre precisa jornalista Rosi Mallet, assídua leitora desta coluna:
"Depois da inconsistência contábil do Pan-americano e dos jovens da classe média (sobre o ataque que bandidos da classe média fizeram na Av. Paulista), não é de estranhar".
Este colunista encontrou outra manipulação de nome: "blogueiro progressista" é como se identifica hoje o jornalista favorável ao governo.
Exceção
Mas não são todos: Ricardo Kotscho, que é lulista desde a época em que isso significava ficar longe do poder, é blogueiro e não está no grupo dos "blogueiros progressistas". E Eugênio Bucci, que é lulista desde criancinha e foi diretor (bom) da Radiobrás no governo Lula, não apenas não é "blogueiro progressista" como defendeu, no seminário da TV Cultura (25 e 26/11, em São Paulo), uma tese que o transformará em inimigo perene desta categoria: a redução da publicidade governamental.
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