Entrevista com Carlos Arthur Nuzman

Veja a matéria original aqui.

Os fins, justificam os meios"

MAQUIAVÉL

Presidente do COB, concede uma entrevista polemica ao JORNAL ESTADO DE SÃO PAULO, afirmando que o resultado final do vôlei no título mundial foi o mais importante, tratando o episodio da derrota do Brasil para a Bulgária. http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101017/not_imp625824,0.php

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COB vai atrás de mais técnicos estrangeiros, de olho em 2016

Nuzman fala em trazer mais profissionais de fora para o País, 'algo já entendido pelos brasileiros'. E isenta a seleção de vôlei na derrota para a Bulgária. 'O resultado final é que deve ser analisado'

17 de outubro de 2010 | 0h 00

 

Bruno Lousada e Sílvio Barsetti / RIO - O Estado de S.Paulo

Um ano após a escolha da sede da Olimpíada de 2016, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e do Comitê Rio, Carlos Arthur Nuzman, mantém o otimismo sobre a participação do Brasil nos Jogos. Espera que o País fique entre os 10 primeiros no quadro de medalhas. Para obter sucesso no evento, Nuzman afirma que vai tentar contratar os melhores técnicos do mundo em várias modalidades. Em entrevista ao Estado, ele condiciona conquista de medalhas em 2016 a investimentos maciços no esporte. Diz ainda que o Brasil precisaria de centros de treinamento completos para se tornar uma potência olímpica.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) cobra a criação da Autoridade Pública Olímpica (APO), que está atrasada e ainda depende de aprovação do Congresso. Isso causa mal-estar no Comitê Rio 2016?

Wilton Junior/AE

Wilton Junior/AE

Nuzman acha que o basquete já apresentou alguma evolução nos Mundiais

Não, estamos trabalhando com o COI de forma muito aberta, não escondemos nenhum problema. Tomamos decisão interna de criar vários comitês por áreas temáticas que operam com a mesma dinâmica da APO. Estamos numa posição confortável e o COI sabe que o Brasil passa por um processo eleitoral.

Uma das marcas da vitória brasileira para receber os Jogos foi a integração entre os três níveis de governo. A eleição presidencial pode mudar o rumo na organização do evento?

De jeito nenhum. Foi por isso que nos reunimos ainda no primeiro turno com os três principais candidatos, de quem recebemos apoio irrestrito e ouvimos a promessa de que vão honrar todas as garantias exigidas pelo COI.

Como evitar que depois de 2016 as instalações esportivas dos Jogos fiquem sem uso?

Vamos criar uma comissão de legado no comitê organizador. O que é também de interesse dos governos. Não dá ainda para detalhar. Temos seis anos para fazer isso.

Como lidar com a pressão por medalhas nos Jogos do Rio?

Sabemos desde a vitória em Copenhague que a cobrança vai ser muito grande. Mas quero mostrar um dado importante. O total de investimentos da China, no quadriênio 2004-2008, foi superior a US$ 2 bilhões e os chineses ganharam 100 medalhas nos Jogos de Pequim. O Brasil, com US$ 200 milhões, obteve 15 medalhas.

Que leitura faz desses dados?

Sem recursos, não tem performance. Quando a gente ouve alguém dizendo que (o Brasil) deveria ganhar mais medalhas, isso parte de pessoas completamente fora de sentido. Precisamos de recursos públicos e de patrocinadores.

A meta do COB é que o Brasil chegue entre os dez melhores em 2016. O que vai ser preciso para isso?

Recursos e centros de treinamentos. No Brasil não existe nenhum. A Austrália possui 9 centros de treinamento completos. Espanha, Alemanha e China também têm seus CTs. O Brasil, não. Centros de treinamento completos são os que abrigam várias modalidades, muitos com laboratório.

Não se consegue solução rápida para isso? É uma questão que preocupa?

Preocupa, com certeza. Mas, o que fazer? Vamos trabalhar e treinar da maneira como estamos fazendo.

A ideia do Brasil como potência olímpica passa pela construção desses CTs?

Sim. É preciso fazer vários centros olímpicos completos no País. Um no Rio, outro em São Paulo, em Belo Horizonte, no Sul, no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste.

O senhor está no COB desde 1995. O que foi feito nesses anos para que os CTs fossem construídos?

Os CTs têm de passar por governos do Estado ou prefeituras ou governo federal. Todos devem estar irmanados para dar uma solução. Não é uma questão simples. Até porque não tínhamos a motivação de ter uma Olimpíada; na hora que houve a confirmação, mudam o foco e o interesse.

Qual o total dos investimentos do Brasil para os Jogos de 2016?

Vai ser muito mais que aqueles US$ 200 milhões (de Pequim). Com certeza. Mas não tenho esse número. O Ministério do Esporte está trabalhando, assim como as confederações, com novos patrocinadores, alguns privados. O chamariz vai movimentar completamente o esporte brasileiro. Com relação ao período de 2008 a 2012, também não sabemos os valores. Deve ser algo superior a US$ 200 milhões, mas só saberemos desses números no fim do ano que vem.

A ideia de trazer técnicos de ponta e renomados está nos planos?

Queremos os melhores técnicos. Às vezes, eles podem estar comprometidos e temos de aceitar a situação. Mas vamos buscar os melhores, brasileiros ou não. Temos vários estrangeiros hoje nos nossos quadros. Isso já está assimilado pelo esporte nacional. É algo entendido e aceito.

A conquista recente do tricampeonato mundial masculino confirma a hegemonia do Brasil no vôlei?

Resultado extraordinário, a equipe encantou o mundo, com muita personalidade e espírito de superação, um lado psicológico magnífico, acima de qualquer previsão.

O senhor assistiu ao jogo Brasil x Bulgária (polêmico, em que as duas seleções teriam entrado em quadra com o propósito de perder)?

Eu assisti a alguns jogos. A outros não pude, por questões de trabalho. Esse eu não assisti.

Pelo que ficou sabendo, a partir de declarações de alguns atletas como Giba e Mário Júnior, lhe causou algum constrangimento o modo como a seleção se apresentou?

O maior erro foi o da Federação Internacional de Vôlei. Ela errou. Não pode ter um regulamento mal feito, tem profissionais pagos para isso. Não aceito o regulamento como foi feito. E o Brasil não tinha levantador. O Marlon estava fora e o Bruninho teve problema, febre. Jogou com uma equipe modificada, como a Bulgária também. Você tem um regulamento, tem de jogar.

Jogar com o regulamento?

Não é jogar com o regulamento. Você tem um regulamento e dentro do regulamento, muitas vezes sofre ou não. O Brasil cumpriu a sua etapa normalmente, perdeu o jogo e soube se recuperar.

A reação do público no ginásio em Roma foi normal (vaiando os brasileiros)?

É o calor do jogo. A torcida italiana é quente, a do Brasil e a da Espanha também são.

O senhor defende a estratégia adotada pela equipe de Bernardinho?

A equipe trabalhou visando ao título, conseguiu a conquista e tem meu apoio. O Bernardinho é um dos maiores técnicos da história do vôlei. O Brasil tem, aliás, os dois melhores técnicos da história do vôlei mundial, Bernardinho e Zé Roberto.

A insistência com relação ao episódio nebuloso no jogo entre Brasil e Bulgária é motivada por declarações dos próprios atletas brasileiros. Giba, por exemplo, disse após o jogo que sua carreira estava manchada.

Não vou entrar no mérito. Essa equipe tem de ser vista pela conquista do tricampeonato mundial. Venceu Cuba por 3 a 0 na final. Ganhou a semifinal contra os donos da casa (Itália) por 3 a 1. O foco que deve ser analisado será sempre o resultado final.

Na contramão do vôlei vem o basquete, 9º lugar no mundial feminino e masculino, ambos disputados em 2010. Isso tem explicação?

Você que falou em contramão. No basquete já começou uma mudança. No masculino, foi contratado um técnico campeão olímpico (o argentino Ruben Magnano). Ele não vai conseguir em poucos meses mudar a atuação da equipe, mas já mudou o espírito e a vontade. No feminino, a Hortência (diretora da Confederação) já assumiu que o Brasil precisa de uma nova injeção, e que ela está pronta para fazer isso. Você não vai voltar a ter conquistas da noite por dia. O basquete vai melhorar, está no caminho certo.

O senhor falou em dois ídolos, Bernardinho e Zé Roberto (são desafetos declarados). Não promoveria um aperto de mãos entre eles?

Os dois são meus amigos pessoais. Conheço-os como pouca gente, eles foram meus atletas. Deixem conquistar os títulos deles - o que fazem, como fazem - separadamente.



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